O Agronegócio, o Turismo e o Futuro de Analândia

Analândia, situada na região noroeste do Estado de São Paulo, com uma extensão territorial de 325,953 km², é uma cidade de beleza exuberante entrelaçada por rios e nascentes. Reconhecida como Estância Turística em 1966, pela qualidade de sua água e principalmente clima, atrai visitantes por suas cachoeiras, trilhas e paisagens. Ao mesmo tempo busca por um desenvolvimento rural sustentável, conciliando turismo, produção agrícola e preservação ambiental.
Em 1987 Anápolis (antigo nome de Analândia), impulsionada pelo desenvolvimento da cultura cafeeira, torna-se município. A cafeicultura destacava-se pela sua qualidade, sendo que muitos produtores passavam pela Estação Ferroviária de Anápolis só para obter o carimbo e valorizar seus grãos. Após décadas de prosperidade, com a crise do setor e consequente êxodo rural para os centros urbanos, a cidade de Analândia com cerca de 10 mil habitantes reduziu para aproximadamente 5 mil.
Atualmente Analândia aposta no turismo, na diversificação da produção rural, com predominância da cana-de-açúcar, na silvicultura de eucaliptos, pastagem e na mineração responsável, consolidando-se como uma cidade com grandes oportunidades.
Entrevista com o Presidente da Câmara
- Presidente: Paulo Sérgio Martins
- Vice-Presidente: José Luiz Vivaldini
Nesta entrevista, o Presidente da Câmara Municipal de Analândia Paulo Sérgio Martins fala sobre os desafios e oportunidades do agronegócio local, a necessidade da diversificação da produção, as políticas de capacitação tecnológica, e preservação ambiental, que podem garantir um futuro equilibrado entre o progresso e a conservação.
1. História e Transformação Econômica
Revista Agrovisão: Analândia teve origem fortemente ligada à cafeicultura. Como o senhor avalia a importância histórica desse ciclo para a formação econômica e social do município?
Presidente Sérgio: A cafeicultura na época da linha de trem foi muito importante para o desenvolvimento socioeconômico de Analândia e Região. Com o êxodo rural as colônias das famílias do campo deram lugar para as grandes plantações mecanizadas de cana e eucaliptos.
2. Produção Atual e Turismo Rural
Revista Agrovisão: Qual a importância econômica do setor rural, inclusive o turismo rural, para Analândia? Qual é a cultura predominante?
Presidente Sérgio: O setor rural de Analândia tem uma grande importância devido ao seu tamanho em relação à área urbana. O município apresenta 32.596 hectares no total, sendo 32.098 hectares destinados à área rural e somente 500 hectares de área urbana. A principal cultura agrícola hoje é a cana-de-açúcar, com arrendamento de áreas pelas usinas da região, em segundo lugar vem o eucalipto e em terceira pastagem. O turismo rural e ecológico pode ser uma fonte alternativa de renda especialmente para os pequenos produtores rurais, com grande potencial devido os recursos naturais de Analândia.
Revista Agrovisão: Qual a quantidade de imóveis rurais cadastrados e como se classificam entre pequenos, médios e grandes? Existem muitos imóveis irregulares?
Presidente Sérgio: Analândia possui 250 imóveis rurais, com 70% entre pequenas e médias propriedades. Existem alguns imóveis irregulares no sentido da partilha e de inventários pendentes.
3. Sustentabilidade e Recursos Naturais
Revista Agrovisão: Analândia está sobre o Aquífero Guarani e possui diversas nascentes e áreas de preservação. Como equilibrar a produção agrícola e a preservação das águas?
Presidente Sérgio: Sim, Analândia tem 81% de seu território sobre o Aquífero Guarani, constituído pelas formações Botucatu e Pirambóia, que é o maior manancial de água doce subterrânea transfronteiriço do Mundo. Desde 2017 iniciou-se o piloto e importante "Projeto Nascentes Analândia", com a adequação ambiental de 18 Propriedades Rurais na Microbacia Hidrográfica do Córrego Cavalheiro que é um grande afluente do Rio Corumbataí, com o cercamento das áreas de APP, reflorestamento de áreas degradadas com 182.500 mudas nativas e atualmente avança com o Saneamento Rural na instalação de 25 Fossas Biodigestoras em 13 Propriedades Rurais e de mais cercamentos e reflorestamentos nas áreas em que o Projeto não teve êxito.
Para equilibrar a produção agrícola e a preservação das águas, primeiramente precisamos conscientizar o Produtor Rural que os Recursos Hídricos são extremamente essenciais para uma melhor produção e agregam valor a Propriedade Rural, dessa forma o Poder Público vem trabalhando com Políticas Públicas de incentivo e apoio.
Revista Agrovisão: Há leis ou ações voltadas ao reflorestamento e uso racional da água nas propriedades?
Presidente Sérgio: As Legislações Federais e Estaduais já restringem e controlam bastante as florestas e o uso racional das águas na Zona Rural, cabendo ao Poder Público Municipal trabalhar em parceria com esses Órgãos de controle e fiscalização.
Revista Agrovisão: Referente ao patrimônio ambiental há estudos ou ações para o desenvolvimento sustentável com relação a preservação de locais históricos (patrimônios tombados) preservação de áreas degradadas, reflorestamento, queimadas, contrapartidas com as mineradoras, utilização e remanejamento da água etc.
Presidente Sérgio: Conforme já citado anteriormente, existe o Projeto Nascentes Analândia que vem sendo executado desde 2017 com Diagnósticos Ambientais na restauração ecológica (cercamentos, reflorestamentos e saneamento rural).
Analândia pertence a APA-CP "Área de Proteção Ambiental de Corumbataí e Piracicaba", com participação de Membros da Prefeitura de Analândia no Conselho da APA.
Analândia integra também o Grupo do Geoparque Corumbataí.
Já no sentido da preservação de locais históricos e patrimônios tombados a Prefeitura Municipal não tem nenhum Projeto específico nesse sentido. Existe recentemente um Projeto particular apenas de turismo histórico/pedagógico chamado "Raízes de Analândia" que pode ser acessado/conhecido no Instagram.
Sobre queimadas, existe recentemente uma boa estrutura e trabalho da Defesa Civil Municipal que atua muito bem nesse sentido.
4. Capacitação e Tecnologia
Revista Agrovisão: O município tem recebido apoio de programas governamentais voltados à capacitação e uso de novas tecnologias no campo?
Presidente Sérgio: Sim, o Município participa de treinamentos e capacitações ofertadas pelos Órgãos correspondentes ao Setor Rural. Existe parceria e convênios com a SAA — Secretaria de Agricultura e Abastecimento / CATI — Coordenadoria de Assistência Técnica Integral. No momento o maior parceiro no quesito de Projetos Ambientais é a Agência das Bacias PCJ, Comitês PCJ e Consórcio PCJ.
PCJ — Piracicaba, Capivari e Jundiaí
Consórcio PCJ — com foco total na gestão hídrica, o Consórcio PCJ atua constantemente com ações e programas para garantir a disponibilidade e a qualidade da água, protegendo os mananciais e promovendo a sustentabilidade dos rios Piracicaba, Capivari e Jundiaí.
Revista Agrovisão: Como o senhor vê a importância da educação técnica e tecnológica para a permanência dos jovens no campo?
Presidente Sérgio: A permanência do Jovem e ou da Família no Campo não depende exclusivamente de "educação técnica" e sim de incentivo no sentido do custo/benefício que hoje nas Cidades são mais atraentes do que na Zona Rural.
5. Mineração e Desenvolvimento
Revista Agrovisão: A Mineradora Jundu tem presença marcante no município. Qual o impacto econômico e social dessa empresa para Analândia? Há diálogo entre o poder público e a mineradora sobre contrapartidas ambientais e sociais, como recuperação de áreas e apoio a projetos comunitários?
Presidente Sérgio: Sim, a Mineração Jundu é uma das maiores Empresas de Analândia, gerando arrecadação e empregos, além de contribuir com alguns Projetos voltados a Educação/Esportes.
6. Produtores Rurais e os Benefícios Municipais
Revista Agrovisão: Quais os benefícios atuais e/ou implementações para os produtores rurais? Há alguma parceria com a Prefeitura quanto à utilização de máquinas e implementos agrícolas, ou algum incentivo fiscal? Cooperativas?
Presidente Sérgio: A Prefeitura de Analândia possui a "Patrulha Agrícola" que são maquinários/implementos recebidos do Governo Estadual exclusivamente para o apoio do pequeno Produtor Rural, porém, pouco utilizado devido a cobrança/taxa elevada e a pouca divulgação da existência do Programa. Único incentivo no momento é o apoio da Casa da Agricultura na habilitação de documentos junto a SAA/CATI para obtenção de crédito rural, com incentivo de prazos maiores e juros menores.
Revista Agrovisão: Como o transporte escolar/saúde favorece os produtores rurais e sua família? E o acesso e infraestrutura para as localidades mais distantes?
Presidente Sérgio: O transporte escolar faz um excelente papel no Município, não só de transporte, mas também, de apoio, vigilância e comunhão junto aos moradores da área rural. O acesso e infraestrutura têm melhorado muito nos últimos anos, com obras e manutenções periódicas pela Prefeitura Municipal e com a parceria de usinas que trabalham na região.
7. Perspectivas para o Futuro
Revista Agrovisão: Quais são, na visão do senhor, os principais desafios e oportunidades para o agronegócio de Analândia nos próximos anos? Que mensagem o senhor deixaria aos produtores, empreendedores e jovens rurais que desejam investir no campo?
Presidente Sérgio: Os principais desafios para o Agronegócio da Cidade geralmente estão ligados ao investimento e estrutura, como manutenções periódicas nas Estradas Rurais para facilitar a escoação da Produção Agrícola, sinalização adequada e apoio ao pequeno e médio Produtor Rural através de Políticas Públicas. Já no Turismo também carece de mais investimento e estrutura, em especial na manutenção dos Pontos Turísticos, sinalização, divulgação e parceria com a iniciativa privada.
Com "êxodo invertido" agora, a População de grandes centros Urbanos buscam refúgios na Zona Rural, em especial em contato com os Recursos Naturais, com isso os Proprietários Rurais devem ter um olhar mais voltado ao Agroecológico.
Joana Jorge — Jornalista (FENAJ 13.715/SP), Editora da Revista AgroVisão
